Acabei de ler no
portal de informações de uma universidade, que seleciona alunos de graduação
pelo SISU (Sistema de Seleção Unificada), que até às 18 h de ontem, último dia
para inscrição, os três cursos que lideravam a lista dos mais procurados no
país eram Administração, Direito e Pedagogia! Sim, Pedagogia! Mais de dois
milhões e meio de inscritos na seleção, o que implica em muitos para o curso
que forma professores para a educação básica.
Não me admirei com
Administração e, principalmente, com Direito. São cursos com ampla atuação no
mercado de trabalho, muitas possibilidades para concursos públicos e que
carregam certo prestígio. Mas estranhei de não ter sido Medicina, por muito
tempo um curso muito concorrido pelo prestígio, pela expectativa de bons salários
e também, vá lá, pela “vocação”. Contudo, minha surpresa maior foi com a
Pedagogia. Uma surpresa boa. Melhor, muito boa! Tomara que, realmente, muitas
pessoas estejam interessadas em serem professores neste país. Afinal, eu
acredito que apenas pela Educação, poderemos salvar o Brasil desta situação de
ignorância, mesquinharia e atraso.
A Educação promove o
ser humano. É por meio dela que podemos compreender quem somos, qual o nosso
ambiente e o que podemos fazer para evoluirmos. Um povo educado adoece menos,
porque sabe evitar a doença e promover a saúde; administra melhor os recursos
que têm, naturais e financeiros, e não enfrenta grandes dificuldades; convive
melhor com as pessoas, porque adquirindo cultura, aprende a respeitar as
diferenças. Um povo educado aproveita melhor a vida e tem a oportunidade de ser
mais feliz.
Contudo, pela
deficiência desses atributos, não é difícil justificar a precariedade da
Educação no Brasil. Infelizmente, a Educação é pouco valorizada. Pelo baixo
aproveitamento médio no ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) percebe-se não a
baixa escolarização, mas a baixa educação. Bens móveis e imóveis, fama e
repercussão nas redes sociais são alvo de maior cobiça da população que a
cultura, a arte, as ciências, as letras. Sou de um tempo em que se valorizava
aquele que sabia mais e do mais variado. Valia, por exemplo, ser contador,
escritor de contos, amante do cinema, conhecedor de passarinhos e de árvores,
tudo em um só indivíduo. Ou dona de casa, costureira, contadora de causos,
aspirante a enfermeira e mediadora de conflitos, também tudo reunido em uma só
pessoa. O conhecimento não era restrito às salas de aula cheias de carteiras e
pó dos colégios. Todo espaço era um ambiente de aprendizado. Aprendia-se a o
nome das aves com os mais velhos; a habilidade de escrever, lendo; a de mediar
conflitos, observando. Hoje, ter mais de uma atividade é para ficar rico; fazer
mais de um curso, é coisa de gente mal resolvida; não fazer uma especialização,
é preguiça. O importante é ter o carro do ano, trocar sempre a mobília da casa,
andar com roupas de marcas famosas, receber muitas mensagens pelo Smartphone e ter muitos amigos e
curtidas no Facebook.
Hoje, quando eu já me
formei na faculdade, eu aprendo muito mais. Descobri muitas coisas que eu não
sabia. Observo à minha volta e vejo o quanto ficou para se aprender. Na escola
a gente preocupava em saber os nomes dos principais rios da Europa, onde
nasciam e desaguavam, mas hoje eu me pergunto de onde vem e para onde vai a
água que sai da torneira de minha casa, onde nasce o rio que abastece minha
região e onde ele vai desaguar. Na escola eu estudava a evolução de Darwin, da
célula ao homem, passando pelos mais diferentes seres vegetais e animais, que
nunca habitaram o meu estado; e hoje eu pergunto quais plantas nascem
espontâneas no meu quintal. Eu permiti que a escola atrapalhasse os meus
estudos. E ainda criança, fui alertada para este mal, por um autor que não me
recordo agora o nome.
Vejo que tudo evoluiu
no mundo, menos a Educação. Lembro-me de meu período como estudiosa de
licenciatura de um professor nos observar que tudo mudou, menos a forma de se
ensinar nas escolas. Quadro, cuspe, giz e nada mais. A Educação merece mais do
que isto. Vinte e cinco por cento do PIB para a Educação não são para encher
pátios de carro, é para atualizar e promover a forma de ensinar. Antes de tudo,
os professores precisam ser valorizados, incentivados. Lecionar não deve ser um
“bico”, e, sim, uma profissão de respeito. O professor deve ser remunerado para
dar aulas e também para planejá-las. O orientador pedagógico deve ser seu
auxiliar. O conhecimento não deve ser repassado, mas construído. E isso, dá
trabalho, mas muda. E muda tudo.
Eu acredito na
Educação. E espero otimista que muito brasileiros desejem, sim, cursar
Pedagogia, ser professores e mudar o nosso país.
Laís, onde se vê esperança é possível que se encontre as trevas. Pessoas letradas não são necessariamente críticas. Temo pela falta de crítica desses aspirantes à Pedagogia. Bons professores conseguem passar seu conhecimento aos alunos, mas os melhores professores são os que conseguem fazer os alunos buscar o conhecimento. Até que ponto as diretrizes políticas voltadas a educação estão preocupadas em formar críticos ou apenas "diminuir a quantidade de analfabetos"? Apregoa-se ao atual governo nacional os méritos de propiciar que um maior número de pessoas tenha acesso ao ensino superior, no entanto, será que a formação dos atuais profissionais é comparável ao ensino que se praticava 20 anos atrás? E pior, será que os formandos atualmente têm a mesma bagagem daqueles que formaram 20 anos atrás? Educação por si só não basta, é preciso que seja de qualidade; e acima de tudo, independente das ideologias partidárias que governam o país. Bia sorte para nós, pois o futuro que nos espera não é promissor.
ResponderExcluirRafael, obrigada por seus comentários, sempre pontuais, polêmicos e reflexivos. Eu concordo com sua avaliação da qualidade X quantidade. Realmente, enquanto os governos se preocuparem com os números, o resultado geral no ENEM continuará insatisfatório. Realmente, o bom professor não é aquele que apenas repassa o conhecimento, mas aquele que faz com que os alunos o construam. Esta é uma máxima na Pedagogia do chamado Construtivismo. Tão criticado por muitos professores que o vêm como uma utopia e divertimento para as crianças, mas que eu defendo e que já procurei colocar em prática. E posso dizer, funciona! Dá trabalho, mas funciona! Entretanto eu prefiro acreditar que o acesso à educação superior, ao curso de Pedagogia, é um passo importante para o futuro da Educação no Brasil. A teoria do Construtivismo, por exemplo, é discutida nas universidades. O problema é depois quando se sai delas e ganha o velho mundo das escolas de ensino básico, arraigadas a velhos preconceitos e acomodadas ao "todo mundo aqui faz assim". Mas eu também acho que o próprio ensino superior também precisa ser reformulado. Outro dia, li uma entrevista feita com uma pedagoga aposentada, já com mais de 90 anos, mas ainda atuante e que ministra palestras para estudantes de Pedagogia. ela sugere algumas mudanças como maior dedicação dos alunos e maior aprofundamento cultural. Ela comenta que muitas estudantes trabalham o dia todo e vão para a faculdade à noite, já bem cansadas e não têm tempo para uma leitura, um filme, uma música. Mas, apesar de tudo isso, eu, ainda, fico esperançosa de ver o curso de Pedagogia entre os três mais procurados. Talvez esse interesse possa ser um início de transformação. Talvez os jovens estejam ficando cansados dos rumos de nosso país e acreditando, assim como eu, no poder transformador da Educação. Sim, vamos discutir a qualidade da Educação e vamos também valorizá-la. Acredito que ressaltar esta busca pelo curso de Pedagogia seja uma forma de começar a reflexão.
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