sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Pedagogia

Acabei de ler no portal de informações de uma universidade, que seleciona alunos de graduação pelo SISU (Sistema de Seleção Unificada), que até às 18 h de ontem, último dia para inscrição, os três cursos que lideravam a lista dos mais procurados no país eram Administração, Direito e Pedagogia! Sim, Pedagogia! Mais de dois milhões e meio de inscritos na seleção, o que implica em muitos para o curso que forma professores para a educação básica.

Não me admirei com Administração e, principalmente, com Direito. São cursos com ampla atuação no mercado de trabalho, muitas possibilidades para concursos públicos e que carregam certo prestígio. Mas estranhei de não ter sido Medicina, por muito tempo um curso muito concorrido pelo prestígio, pela expectativa de bons salários e também, vá lá, pela “vocação”. Contudo, minha surpresa maior foi com a Pedagogia. Uma surpresa boa. Melhor, muito boa! Tomara que, realmente, muitas pessoas estejam interessadas em serem professores neste país. Afinal, eu acredito que apenas pela Educação, poderemos salvar o Brasil desta situação de ignorância, mesquinharia e atraso.

A Educação promove o ser humano. É por meio dela que podemos compreender quem somos, qual o nosso ambiente e o que podemos fazer para evoluirmos. Um povo educado adoece menos, porque sabe evitar a doença e promover a saúde; administra melhor os recursos que têm, naturais e financeiros, e não enfrenta grandes dificuldades; convive melhor com as pessoas, porque adquirindo cultura, aprende a respeitar as diferenças. Um povo educado aproveita melhor a vida e tem a oportunidade de ser mais feliz.

Contudo, pela deficiência desses atributos, não é difícil justificar a precariedade da Educação no Brasil. Infelizmente, a Educação é pouco valorizada. Pelo baixo aproveitamento médio no ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) percebe-se não a baixa escolarização, mas a baixa educação. Bens móveis e imóveis, fama e repercussão nas redes sociais são alvo de maior cobiça da população que a cultura, a arte, as ciências, as letras. Sou de um tempo em que se valorizava aquele que sabia mais e do mais variado. Valia, por exemplo, ser contador, escritor de contos, amante do cinema, conhecedor de passarinhos e de árvores, tudo em um só indivíduo. Ou dona de casa, costureira, contadora de causos, aspirante a enfermeira e mediadora de conflitos, também tudo reunido em uma só pessoa. O conhecimento não era restrito às salas de aula cheias de carteiras e pó dos colégios. Todo espaço era um ambiente de aprendizado. Aprendia-se a o nome das aves com os mais velhos; a habilidade de escrever, lendo; a de mediar conflitos, observando. Hoje, ter mais de uma atividade é para ficar rico; fazer mais de um curso, é coisa de gente mal resolvida; não fazer uma especialização, é preguiça. O importante é ter o carro do ano, trocar sempre a mobília da casa, andar com roupas de marcas famosas, receber muitas mensagens pelo Smartphone e ter muitos amigos e curtidas no Facebook.

Hoje, quando eu já me formei na faculdade, eu aprendo muito mais. Descobri muitas coisas que eu não sabia. Observo à minha volta e vejo o quanto ficou para se aprender. Na escola a gente preocupava em saber os nomes dos principais rios da Europa, onde nasciam e desaguavam, mas hoje eu me pergunto de onde vem e para onde vai a água que sai da torneira de minha casa, onde nasce o rio que abastece minha região e onde ele vai desaguar. Na escola eu estudava a evolução de Darwin, da célula ao homem, passando pelos mais diferentes seres vegetais e animais, que nunca habitaram o meu estado; e hoje eu pergunto quais plantas nascem espontâneas no meu quintal. Eu permiti que a escola atrapalhasse os meus estudos. E ainda criança, fui alertada para este mal, por um autor que não me recordo agora o nome.

Vejo que tudo evoluiu no mundo, menos a Educação. Lembro-me de meu período como estudiosa de licenciatura de um professor nos observar que tudo mudou, menos a forma de se ensinar nas escolas. Quadro, cuspe, giz e nada mais. A Educação merece mais do que isto. Vinte e cinco por cento do PIB para a Educação não são para encher pátios de carro, é para atualizar e promover a forma de ensinar. Antes de tudo, os professores precisam ser valorizados, incentivados. Lecionar não deve ser um “bico”, e, sim, uma profissão de respeito. O professor deve ser remunerado para dar aulas e também para planejá-las. O orientador pedagógico deve ser seu auxiliar. O conhecimento não deve ser repassado, mas construído. E isso, dá trabalho, mas muda. E muda tudo.


Eu acredito na Educação. E espero otimista que muito brasileiros desejem, sim, cursar Pedagogia, ser professores e mudar o nosso país. 

2 comentários:

  1. Laís, onde se vê esperança é possível que se encontre as trevas. Pessoas letradas não são necessariamente críticas. Temo pela falta de crítica desses aspirantes à Pedagogia. Bons professores conseguem passar seu conhecimento aos alunos, mas os melhores professores são os que conseguem fazer os alunos buscar o conhecimento. Até que ponto as diretrizes políticas voltadas a educação estão preocupadas em formar críticos ou apenas "diminuir a quantidade de analfabetos"? Apregoa-se ao atual governo nacional os méritos de propiciar que um maior número de pessoas tenha acesso ao ensino superior, no entanto, será que a formação dos atuais profissionais é comparável ao ensino que se praticava 20 anos atrás? E pior, será que os formandos atualmente têm a mesma bagagem daqueles que formaram 20 anos atrás? Educação por si só não basta, é preciso que seja de qualidade; e acima de tudo, independente das ideologias partidárias que governam o país. Bia sorte para nós, pois o futuro que nos espera não é promissor.

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    1. Rafael, obrigada por seus comentários, sempre pontuais, polêmicos e reflexivos. Eu concordo com sua avaliação da qualidade X quantidade. Realmente, enquanto os governos se preocuparem com os números, o resultado geral no ENEM continuará insatisfatório. Realmente, o bom professor não é aquele que apenas repassa o conhecimento, mas aquele que faz com que os alunos o construam. Esta é uma máxima na Pedagogia do chamado Construtivismo. Tão criticado por muitos professores que o vêm como uma utopia e divertimento para as crianças, mas que eu defendo e que já procurei colocar em prática. E posso dizer, funciona! Dá trabalho, mas funciona! Entretanto eu prefiro acreditar que o acesso à educação superior, ao curso de Pedagogia, é um passo importante para o futuro da Educação no Brasil. A teoria do Construtivismo, por exemplo, é discutida nas universidades. O problema é depois quando se sai delas e ganha o velho mundo das escolas de ensino básico, arraigadas a velhos preconceitos e acomodadas ao "todo mundo aqui faz assim". Mas eu também acho que o próprio ensino superior também precisa ser reformulado. Outro dia, li uma entrevista feita com uma pedagoga aposentada, já com mais de 90 anos, mas ainda atuante e que ministra palestras para estudantes de Pedagogia. ela sugere algumas mudanças como maior dedicação dos alunos e maior aprofundamento cultural. Ela comenta que muitas estudantes trabalham o dia todo e vão para a faculdade à noite, já bem cansadas e não têm tempo para uma leitura, um filme, uma música. Mas, apesar de tudo isso, eu, ainda, fico esperançosa de ver o curso de Pedagogia entre os três mais procurados. Talvez esse interesse possa ser um início de transformação. Talvez os jovens estejam ficando cansados dos rumos de nosso país e acreditando, assim como eu, no poder transformador da Educação. Sim, vamos discutir a qualidade da Educação e vamos também valorizá-la. Acredito que ressaltar esta busca pelo curso de Pedagogia seja uma forma de começar a reflexão.

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