segunda-feira, 23 de março de 2015

Cabelo “bom”, cabelo “ruim”

O que é um cabelo bom? E o que é um cabelo ruim? Quando assim interrogados, rapidamente pensamos que o cabelo bom é aquele liso, e se for comprido, volumoso e brilhante, então é de propaganda de xampu. Já o cabelo enrolado, seja crespo ou cacheado, (ah!) esse é o ruim.

Quando foi que aprendemos isso? Sempre! E aprendemos cedo qual é o tipo do nosso cabelo. “Ah! Que sorte, o cabelo dela é bom!”, “Ih! Coitadinha! Vai gastar muito. É uma gracinha, mas o cabelinho... não é dos melhores não”. E fica ainda mais evidente para as meninas (num machismo tremento), “Se fosse mulher, não teria um cabelo tão bom” ou “Nossa! Porque não veio trocado, ela com o cabelo liso e ele, enrolado. Porque homem pode cortar e pronto. Mas mulher...”.  Quem nunca escutou ou, mesmo, já se flagrou dizendo frases desse tipo. E tiveram as músicas, “Meu cabelo é ruim, mas meu terno é de lin' (...)”, mostrando, Os Raimundos, que um cabelo “ruim” dificulta no momento da conquista. E para elas, nem se fala, o cabelo foi colocado lado a lado à forma do corpo (machismo novamente), como ressaltavam os Mamonas, “Mina, seus cabelo é da hora/seu corpão violão (...)”, em cujo clipe aparecia a imagem de uma mulher com os cabelos lisos e loiros (!). O jeito era se apegar, então, a um modelo mais romântico, lembrando Caetano Veloso e os “caracóis dos seus cabelos”.

A verdade é que fomos aculturados a entender que quem tinha os cabelos lisos, tinha uma vantagem diante dos outros. E a preferência não foi construída apenas para a atração sexual e afetiva (o que, por si só, já é ridículo!). Mas estendeu-se por vários campos. Muitos se lembrarão de histórias de constrangimento sofridas por pessoas com o dito cabelo “ruim” nas mais diversas situações. Uma professora que teve o cabelo considerado inapropriado para dar aulas na educação infantil (!?); um menino que teve a renovação de sua matrícula negada em uma escola, após a mãe se recusar a cortar seu cabelo black power (terrível!); uma jornalista que precisou prender com uma borracha de escritório o seu cabelo, num posto da Polícia Federal, para adequá-lo ao sistema na hora de tirar a fotografia para seu passaporte. E são vários os casos. E nada disso aconteceria se os cabelos fossem lisos ou se as pessoas soubessem usar/controlar/domar (como se tratasse de uma fera) seus cabelos. A questão era, adapte-se ou sofra, no melhor (ou pior) da ditadura do cabelo liso.

Então, para adequar-se ao meio e ser aceitos, homens e mulheres passaram a adequar seus cabelos ao sistema. Poucos por gosto, muitos por necessidade. Em uma questão em que até o gosto se discute, visto ser também aculturado. Começou, então, a corrida frenética aos salões de beleza. Escovas, chapinhas, relaxamentos e, por fim, os alisamentos. Para as mulheres não faltaram opções. Tecnologia japonesa, marroquina, americana, de tudo. E para os homens, algo básico, corte bem curto, por favor. Poucas pessoas resistiram a tudo isso. Era preciso transformar o cabelo “ruim”. E para quem não quisesse os métodos mais radicais e, por que não, invasivos, então, o jeito era prender, porque solto, só Elke Maravilha.

Mas tantos tratamentos químicos tiveram consequência. Além dos riscos à saúde apontados por diferentes profissionais, e eles incluem quem usa e quem aplica, os resultados foram ficando cada vez menos satisfatórios. O cabelo fica bonito no começo, depois, vai acabando, fica muito ressecado, opaco, sem vida, sem forma, sem graça, sem nada.


Aí veio a reviravolta. E, pegando carona na era do politicamente correto, muita gente de cabelo enrolado decidiu assumir suas madeixas e exigir que sejam respeitadas e aceitas como são. E como é a cultura que define o que é bonito ou não, com essa onda toda, muita gente já está começando a gostar e admirar os cabelos crespos e cacheados. Não é uma admiração apenas pelo o quê é natural (aliás, isso sempre existiu de algum modo), mas é olhar e achar bonito e lembrar-se da poesia dos caracóis do Caetano.  

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