O que é um cabelo bom? E o que é
um cabelo ruim? Quando assim interrogados, rapidamente pensamos que o cabelo
bom é aquele liso, e se for comprido, volumoso e brilhante, então é de
propaganda de xampu. Já o cabelo enrolado, seja crespo ou cacheado, (ah!) esse
é o ruim.
Quando foi que aprendemos isso?
Sempre! E aprendemos cedo qual é o tipo do nosso cabelo. “Ah! Que sorte, o
cabelo dela é bom!”, “Ih! Coitadinha! Vai gastar muito. É uma gracinha, mas o
cabelinho... não é dos melhores não”. E fica ainda mais evidente para as
meninas (num machismo tremento), “Se fosse mulher, não teria um cabelo tão bom”
ou “Nossa! Porque não veio trocado, ela com o cabelo liso e ele, enrolado.
Porque homem pode cortar e pronto. Mas mulher...”. Quem nunca escutou ou, mesmo, já se flagrou
dizendo frases desse tipo. E tiveram as músicas, “Meu cabelo é ruim, mas meu
terno é de lin' (...)”, mostrando, Os Raimundos, que um cabelo “ruim” dificulta
no momento da conquista. E para elas, nem se fala, o cabelo foi colocado lado a
lado à forma do corpo (machismo novamente), como ressaltavam os Mamonas, “Mina,
seus cabelo é da hora/seu corpão violão (...)”, em cujo clipe aparecia a imagem
de uma mulher com os cabelos lisos e loiros (!). O jeito era se apegar, então,
a um modelo mais romântico, lembrando Caetano Veloso e os “caracóis dos seus
cabelos”.
A verdade é que fomos aculturados
a entender que quem tinha os cabelos lisos, tinha uma vantagem diante dos
outros. E a preferência não foi construída apenas para a atração sexual e
afetiva (o que, por si só, já é ridículo!). Mas estendeu-se por vários campos. Muitos
se lembrarão de histórias de constrangimento sofridas por pessoas com o dito
cabelo “ruim” nas mais diversas situações. Uma professora que teve o cabelo
considerado inapropriado para dar aulas na educação infantil (!?); um menino
que teve a renovação de sua matrícula negada em uma escola, após a mãe se
recusar a cortar seu cabelo black power
(terrível!); uma jornalista que precisou prender com uma borracha de escritório
o seu cabelo, num posto da Polícia Federal, para adequá-lo ao sistema na hora
de tirar a fotografia para seu passaporte. E são vários os casos. E nada disso
aconteceria se os cabelos fossem lisos ou se as pessoas soubessem
usar/controlar/domar (como se tratasse de uma fera) seus cabelos. A questão
era, adapte-se ou sofra, no melhor (ou pior) da ditadura do cabelo liso.
Então, para adequar-se ao meio e
ser aceitos, homens e mulheres passaram a adequar seus cabelos ao sistema.
Poucos por gosto, muitos por necessidade. Em uma questão em que até o gosto se
discute, visto ser também aculturado. Começou, então, a corrida frenética aos
salões de beleza. Escovas, chapinhas, relaxamentos e, por fim, os alisamentos.
Para as mulheres não faltaram opções. Tecnologia japonesa, marroquina,
americana, de tudo. E para os homens, algo básico, corte bem curto, por favor. Poucas
pessoas resistiram a tudo isso. Era preciso transformar o cabelo “ruim”. E para
quem não quisesse os métodos mais radicais e, por que não, invasivos, então, o
jeito era prender, porque solto, só Elke Maravilha.
Mas tantos tratamentos químicos
tiveram consequência. Além dos riscos à saúde apontados por diferentes
profissionais, e eles incluem quem usa e quem aplica, os resultados foram
ficando cada vez menos satisfatórios. O cabelo fica bonito no começo, depois,
vai acabando, fica muito ressecado, opaco, sem vida, sem forma, sem graça, sem
nada.
Aí veio a reviravolta. E, pegando
carona na era do politicamente correto, muita gente de cabelo enrolado decidiu
assumir suas madeixas e exigir que sejam respeitadas e aceitas como são. E como
é a cultura que define o que é bonito ou não, com essa onda toda, muita gente
já está começando a gostar e admirar os cabelos crespos e cacheados. Não é uma
admiração apenas pelo o quê é natural (aliás, isso sempre existiu de algum
modo), mas é olhar e achar bonito e lembrar-se da poesia dos caracóis do
Caetano.
Pretendo voltar a escrever sobre o assunto. Inspirada!
ResponderExcluirMuito original. Maravilhoso o texto, Laís! ;)
ResponderExcluirMuito obrigada, Gabriel. Vindo de você é mais que um elogio!
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